A MINHA COR É NEGRA, INDICA LUTO E PENA

É luz, que nos alegra,
A tua cor morena.
É negra a minha raça,

A tua raça é branca,
Tu és cheia de graça,
Tens a alegria franca,
Que brota a flux do peito
Das cândidas crianças.

Todo eu sou um defeito,
Sucumbo sem esperanças,
E o meu olhar atesta
Que é triste o meu sonhar,
Que a minha vida é esta
E assim há-de findar!
Tu és a luz divina,
Em mil canções divagas,
Eu sou a horrenda furna
Em que se quebram vagas!…
Porém, brilhante e pura,
Talvez seja a manhã
Irmã da noite escura!
Serás tu minha irmã?!…

 

Caetano Costa Andrade,
(São Tomé 1864 - Alcobaça, Portugal 1890)

A periodização da história da literatura angolana

Infelizmente as tentativas para a formulação teórica da História da Literatura Angolana parecem esbarrar com o problema da sua periodização, Por essa razão e à nossa falta de conhecimento cientifico comprovado sobre este tema, para o presente trabalho, optamos por seguir, com ajustamentos de conveniência, o modelo proposto por Alfredo Margarido, num artigo publicado no jornal o Estado de São Paulo, em finais de 1983, intitulado “A emergência da literatura angolana”, onde procura fixar 4 períodos para a história literatura angolana, a saber:

1)     Desde finais do séc. XIX/princípios do séc. XX até 1930, onde se destaca a célebre geração 1900, onde se destacam Cordeiro da Mata, Fontes Pereira, Silvério Ferreira, Apolinário Van-Dúnem e Paixão Franco. No fundo, no fundo, a geração progenitora do famoso manifesto, escrito a várias mãos, “A voz de Angola clamando no deserto”, que foi um autêntico libelo acusatório e uma vigorosa reacção de uma plêiade de proto-nacionalistas angolanos a um labéu de cariz racista, vindo a público num periódico da época, burilado por um escriba colonial.

2)     De 1930 a 1945, o chamado “período de quase não literatura”, onde avultam os raríssimos nomes do advogado, dicionarista e romancista, Assis Júnior, sem esquecer o escritor e pesquisador cultural Óscar Ribas e o escritor Castro Soromenho.

3)     De meados dos anos 40 até 1961, com despoletar da luta armada. Neste período temos as gerações da “Mensagem” e da “Cultura”, sendo um dos momentos privilegiados de imposição do nosso processo literário face à ordem cultural colonial.

4)     De 1961 até 1975, onde temos a geração da guerrilha e a de 70, sem esquecer os escritores que gramaram no Tarrafal (alguns dos quais vindos da geração da “Cultura”).

5)     período pós-independência 


(conf. Norberto Costa, A periodização da história da literatura angolana, 23 de Novembro de 2015, Jornal Cultura; http://jornalcultura.sapo.ao/letras/a-periodizacao-da-historia-da-literatura-angolana/fotos

Desde finais do séc. XIX até 1930

Destaca a célebre geração 1900, onde se destacam Cordeiro da Mata, Fontes Pereira, Silvério Ferreira, Apolinário Van-Dúnem e Paixão Franco, a geração progenitora do famoso manifesto, escrito a várias mãos, “A voz de Angola clamando no deserto”, que foi um autêntico libelo acusatório e uma vigorosa reacção de uma plêiade de proto-nacionalistas angolanos a um labéu de cariz racista, vindo a público num periódico da época.

A característica eminentemente histórico-social, parece ser uma impressão comum a todos os estudiosos da literatura angolana,

Os autores angolanos estiveram sempre na primeira linha de combate pela libertação e pela dignificação do homem angolano e, o que não é raro, subordinando a produção literária à luta sociopolítica.

Os primeiros registos de produção escrita de um autor natural de Angola remontam ao século XVII. Isto não significa que, já mesmo ante dessa época não houvesse já uma literatura angolana marcadamente tradicional com uma característica determinante: a de ser oral.

De acordo com Carlos Ervedosa, em seu “Roteiro da Literatura Angolana” um dos primeiros escritos da literatura oral, foi feito por Saturnino de Sousa e Oliveira e, Manuel Alves de Castro Francina, um brasileiro e um angolano que, em seu livro, editado em 1864, “Elementos Gramaticais da Língua Nbumdu”, nos oferecem vinte provérbios em kimbundu (língua originária da região de Luanda e do centro e norte de Angola).

A literatura angolana, surge pois de de uma simbiose entre as características internas do país (culturais, sociais, políticas, económicas) e de influências externas. Para Adriano Mixinge, historiador e crítico de arte angolana, a literatura nacional é o “resultado do património das línguas e culturas africanas interligado com a influência [...] e na relação entre o passado e o mundo contemporâneo.

Como acontece com os outros países, a literatura de Angola não nasce por método instintivo. Existem inúmeros antecedentes e precursores a influenciaram o carácter social, cultural e estético da literatura e da poesia, em particular. Logo à partida, não podemos  descurar a tradição da oralidade, factor de grande influência em toda a África, e que será, talvez, um dos antecedentes de maior responsabilidade.

O peso da oralidade exerce-se em muita da obra poética africana, conferindo-lhe uma grande carga de "espiritualismo telúrico".

A literatura escrita angolana contudo é ainda bastante jovem, uma vez que as suas sementes foram lançadas no século XIX, com a criação pelo Governador Pedro Alexandre da Cunha, em 1845, do Boletim Oficial.

Seguidor das funções oficiais para as quais foi criado, desempenhava também as funções de um periódico que, apoiado por uma pequena elite de europeus récem ligados à Colónia, nele passando a ser publicados documentos pastorais, crónicas de viagens de portugueses pelas terras de Angola, estudo e artigos doutrinários colonialistas e alguns fragmentos literários em prosa e poesia[1].

Foi o ponto de partida para o incremento do periodismo em Angola,a partir de onde se sucederam várias publicações a partir de 1845.

O primeiro periódico editado por africanos, “O Hecho de Angola”, data de 1881. Sua aparição abriria caminho para o despertar de novos órgãos daquela que se chamou a imprensa africana, que se caracterizou por conter publicações redigidas ora em kimbundu ora em português. Entre estas, destacam “O Futuro de Angola”, 1882; “O Farol do Povo”, 1883; “O Arauto Africano”, 1889; e “1 Muen’exi”, 1889; “O Desastre”, 1889; e “O Policial Africano”, 1890.

Inicia-se assim uma tradição intervencionista e panfletária de uma imprensa feita por “filhos da terra,” comprometida com a existência social do angolano, intervindo no processo de edificação da consciência e do sentimento nacional.

 Ferreira credita a fundação da poesia angolana a José da Silva Maia Ferreira e seu Espontaneidades de minha alma (1849), embora, hoje, saibamos que textos esparsos de outros autores tenham sido publicados anteriormente; ele se refere, também,  ao  Almanach  de  Lembranças,  que  circulou  entre  1851  a 1932,  como marco fundador, onde muitos residentes nas colónias publicaram suas experiências poéticas.

Em 1889, J. D. Cordeiro da Matta, por muitos considerado “O pai da literatura de Angola,” publica em Lisboa seu livro “Delírios, Versos 1875- 1887”de onde em 1902 a revista Ensaios Literários extrai e publica o poema «Negra!» o primeiro poema em que um africano, assume cantar a mulher africana como «a deusa da formosura», o que é valor a não considerar pequeno.

 Com a proclamação e implantação da República em Portugal, (5 de Outubro de 1910),segue-se em Angola um período, marcado por um jornalismo laudatório da causa africana, de que são marcos, O Angolense, O Direito, A Verdade, O Farol do Povo, O Brado Africano, onde uma plêiade de homens, como Cordeiro da Matta, Tadeu Bastos, Silvério Ferreira, Paixão Franco, Assis Júnior, não só faziam eco “das reivindicações das massas populares da época,” como foram intérpretes “duma consciência cultural em vias de renovação e de lançarem as bases duma nova personalidade angolana”.

Mas este período é igualmente caracterizado, pela atitude repressiva das autoridades coloniais que tomam as mais diversas medidas para limitar as liberdades e reprimir a actividade jornalística e o associativismo dos naturais da terra.

Fontes

 


[1] Nehone, Roderick ,Literatura Angolana: Literatura e Poder Político, http://www.geledes.org.br/literatura-angolana-literatura-e-poder-politico/#gs.nMRl_So Publicado em: 02/08/2011 acedido em 17/11/2016 16:21

 

Biografia de Manuel C. Amor

Nome literário de José Manuel Couto Amor, Luso-Angolano nascido em 8 de Agosto 1946. Actualmente vive "auto exilado" na cidade da Horta Iha do Faial Açores.

Começou a escrever muito cedo, (aos seis anos na escola primária) mas só publica o seu primeiro poema em 1965 em Luanda na Revista Trópico..

Sem nunca ter feito da escrita a sua actividade principal ,tem poesia dispersa por vários jornais e revistas e está representado em diversas antologias de poesia,  destacando-se:

  1. Edições II,III, IV, V, e VI da Antologia de Escritas, com coordenação do poeta José Félix;
  2.  Antologia Poética Amantes das Leituras 2008, Edium Editores,
  3.  2ª Antologia Poética-Literária – Edição Histórica – Associação Virtual Brasileira de Letras (ABVL), 2006

Obras Publicadas:

  1. "Na Rota do Quinaxixe" - Luanda, 1971,  Edição do autor (esgotado)
  2. "A Metáfora das Asas" - Porto, 2008, Edium Editora
  3. "Despolarização ou o Diário dos Dias Brancos" - Coimbra, 2009, Temas Originais Lda 
  4. "Canto de Diáspora" Vozes de Angola, Coimbra, 2013, Temas Originais Lda.

Angolê

"Este país morreu!”
José Eduardo Agualusa

Na hora do sol-dos-cazumbis (1)
entre o caos e o vazio
Os tchirikwátas(2) cantam.

Como que reescrevendo a geografia real
Reinventam fronteiras
Entre sombras pretas
e o fulgor vermelho

Sonho obstinado
surpreendentemente complexo.

Este país
recusa a morte.

  1. Sol-das- almas; Tonalidade vermelha do céu, depois das 16 horas, em dias de sol;
  2. Pássaro canório;

Dezembro 2006

Romance

No acaso daquela tarde
nossas vidas cruzaram-se.
Seguiram-se outras tardes
que entraram pelas noites

E, na fúria embriagadora
dos beijos que nos dávamos
um álcoòl de êstase subia ao meu cérebro
e eu lentamente
muito lentamente
descia às profundezas  da tua alma
acreditando que tinha descoberto
a minha própria alma.

Loucura das loucuras!

Afinal
na tua vida
nem sequer cheguei a ser
mais um que passou

Manuel C. Amor
in (des) paixões; 1998

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