Angolares 1

Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar...

Caleima2, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.

Rostos duros de angolares1
na luta com o gandu3
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p'la fome de cada dia.

Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas4 em fila,
abrigando cubatas,
izaquente5 cozido
em panela de barro.

Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andante
por sobre a procela das águas.

A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.

Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.

O mar é vida.

P'ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar1
"Terras tem seu dono".

E o angolar1 na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.

P'ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu3,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.