História da poesia de Angola (de 1961 até 1975)

A 4 de Fevereiro de 1961 inicia-se a Luta de Libertação Nacional. O panorama literário angolano, desta época pode ser caracterizado como «um período cuja dinâmica cultural e política, com a distribuição de panfletos nos grandes centros urbanos, anunciava a pré-independência.»

Sobressai a dimensão ética, sedimentada no compromisso político com a causa do nacionalismo que se sobrepõe aos imperativos estético-literários da época.

Quase todos os poetas tratam os temas da identidade, da fraternidade,da terra de Angola pátria de todos, negros,brancos e mestiços; de grande importância é também o tópico da alienação (sobretudo a que respeita ao estado de espírito do branco nascido e criado em Angola). Muita da poesia é também de carácter intimista, como é o caso da de Mário António.

Toda esta geração, utilizando recursos líricos e dramáticos, consegue criar uma poesia de fundo e cariz emocional. Através da poesia, descobre-se Angola, as suas origens, as suas tradições e mitos. A poesia adquire uma intencionalidade pedagógica e didáctica: com ela tenta-se recriar África e Angola, os valores ancestrais do homem africano e da sua terra, bem como ensinar esse mesmo homem a descobrir-se como individualidade. Esta poesia põe em prática a reposição da tradição oral, onde as próprias línguas nacionais ocupam um espaço importante. É, numa palavra, a poesia da "angolanidade".

Boa parte dos seus integrantes vive profundas experiências associadas a tal compromisso como presos políticos, condenados a pesadas penas de reclusão. São os casos Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso, entre os poetas e os escritores, Uanhenga Xitu, Luandino Vieira, entre outros,

Outros engajam-se no Movimento de Libertação Nacional dentro e fora do país. Outros ainda actuam em grupos de intelectuais de esquerda na Europa e em África.

Surgem três nomes que vão ser os principais responsáveis por uma profunda mudança na estética e na temática: David Mestre, Ruy Duarte de Carvalho e Arlindo Barbeitos.

Por um lado, procura-se maior rigor literário; por outro, e como consequência do anterior, evita-se propositadamente o panfletarismo.

Entra-se também numa fase de maior experimentalismo. Estes autores tentam também reconciliar os temas políticos do passado com a procura de uma linguagem poética mais universal. Por exemplo, Ruy Duarte de Carvalho é autor de uma poesia que ao lado de uma grande ambiência de oralidade e de um apontarpara as consequências da guerra, constitui também uma reflexão sobre o próprio discurso poético.

É, no entanto, Arlindo Barbeitos a voz poética que melhor assume a viragem e a ruptura com a tradição da Mensagem.

Em 1970, a 4.ª Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos concedeu a Agostinho Neto o Prémio Lótus em reconhecimento do lugar ocupado pela sua poesia na literatura mundial,  e em 1971 são publicados Vinte Canções para Ximinha de João Maria Vilanova e Bom Dia de João Abel.

Principais poetas desta época:

Agostinho Neto, António Jacinto, António Cardoso, Viriato da Cruz, Alda Lara, Ernesto Lara Filho, Aires de Almeida Santos; Henrique Guerra, João Maria Vilanova, Costa Andrade, Jorge Macedo, Ruy Duarte de Carvalho, Manuel Rui, Arlindo Barbeitos, David Mestre, Jofre Rocha

Referências Biográficas

  • SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre literaturas de Angola, Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph, 2003.
  • CARVALHO, Ruy Duarte. In: Poesia africana de língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003,
  • MATA, Inocência. Literatura angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta. Lisboa: Mar Além, 2001,
  • VANESSA,  RELVAS DE OLIVEIRA TEIXEIRA,  Pelas Letras de Ruy Duarte e Arlindo Barbeitos e Pelas Telas de António Ole, o Desvendar da Face Angolana (http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=669»)