A fugir de mim

 
A fugir de mim

Tomo conta de cada membro do meu corpo
Não só das pernas para fugir de mim
E alcançar mais
Também dos abraços para abraçar outros
Os dos ouvidos para ouvir os demais
Que a mim nem consigo abraçar-me
Nem ouvir-me

Quero ocupar todos os meus órgãos
Vigiar cada célula
Controlar todas as emoções
Para assim me libertar
E poder fugir de mim

Amiúde me assaltam ideias sem nexo
Lucubrações malsãs
Reflexos espontâneos dos neurónios e axónios
Assim como os músculos descomandados
Soçobram em cãibras

Também já experimentei o absurdo da paixão
Ilusoriamente já me dei todo
E tudo quis

Não era esse o caminho da libertação
Mais me prendi
Mais aprisionei
E não me libertei
Mas muito aprendi

Agora sim sei
Fugir de mim


Vale de Salgueiro, segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
Henrique Pedro

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