Composições sem cifras

 
Composições sem cifras
A melodia, sem sombra de dúvida, é o acabamento na construção da música. No entanto, a letra em forma de poesia, é a base, a sustentação.
Não importa em que ritmo, o poema é uma letra impecável que pode ser levada aos confins do mundo.
Vale salientar que o poeta potiguar não é um letrista. Todavia, envereda seus versos na trilha da composição.
Cada poema em letra ou vice e versa, tenta resgatar do leitor uma melodia e conseqüentemente as cifras que são a escrita do som.
Composições sem cifras é um clamor do poeta aos musicistas que levem ao público versos para a música ou música para os versos. Não necessariamente os seus, mas os de todos os poetas espalhados por esse imenso Brasil.
Os nossos ouvidos há muito tempo, pedem boas letras. O som, em alto e bom tom, exige palavras.
Nenhuma outra

A nossa vida
Nem ao menos começou.
Você ainda
Não sabe quem eu sou.
Apesar de tantas coisas pra dizer
De minha vida a você,
Eu silencio em minha dor.
E assim, ficou
Uma só palavra em minha boca.
Que é simplesmente, amor.
Nenhuma outra.
Como é difícil vê-la em plena luz do dia
Que seu sorriso
Como espelho irradia,
Deixando em meu peito,
O mais nítido desejo
De ter a sua companhia.
E assim, ficou
Uma só palavra em minha boca.
Que é simplesmente, amor.
Nenhuma outra.





Em sinais

Vejo num lampejo
De loucura e profecia,
Que um asteróide desceria
Sobre uma terra abandonada.
Uma casa antes habitada,
Mas agora, destruída.
Vejo numa morada
Que não via
Há muito tempo atrás.
Vejo em sinais,
Em velhas páginas de jornais
Que eu mesmo lia.



Cenário

O que falta para te fazer feliz?
O que você diz,
Parece não me preocupar.
Tantas vezes vou tentar,
Quantas sejam necessárias.
Neste cenário,
O melhor ator em cena
É o que pensa
Antes mesmo de atuar.
Tento entender
O que vai dizer você
Antes mesmo de falar.



Apaixonado

De que adianta
Está loucamente apaixonado
Por alguém do outro lado
Que jamais perceberia
Uma efêmera alegria
Numa eterna poesia
De um louco condenado
A amar sem ser amado,
A querer o que é negado,
Por calar o que sentia.


Em lágrimas

Não sou um condutor de águas.
Mas estou em gotas
Nas mesmas lágrimas
Que chorei à toa
Na calçada lá de casa.
Enquanto todos passam
Despercebidos à pequena poça
Que outrora fora
Um menino mimado,
Grito meu nome;
O meu vulto some
Nas réstias do telhado.
Não sucumbi ao fato,
Pois todos me olharam.







Capela

São horas e horas
Que eu tenho que andar
Pra chegar ao lugar
Onde você está.
Mas você não está
Mais ali,
Onde a vi parti
Sem podê-la alcançar.
Ainda lembro o olhar
Quando me disse adeus.
Pareciam os meus
Admirando o mar.
Sei, não devo chorar.
Você está à espera,
Na remota capela
Onde iremos casar.










É mágica

Mágica! Mágica!
Há tantas coisas
Que parecem aparecer.
Mas na verdade,
Há muito tempo estavam ali;
Só que ninguém as percebia.
É essa mania
Que nós temos de não ver.
Mágica! Mágica!
Há tantas coisas
Que parecem aparecer.
Mas na verdade,
Há muito tempo estavam ali.
Talvez não seja
Aquilo que você deseja.
Então, feche os olhos
Que a vontade faz sumir.









Nas asas do bem querer

Não tente me convencer
Que eu posso conhecer
Outra pessoa;
Se a vida toda
Eu só procurei você.
Quantas vezes eu terei que te dizer
Que o mundo voa
Nas asas do bem-querer.
Não tente iludir meu coração
Pondo razão sobre emoção.
Não me ajuda.
Não tenho culpa
De amar tua pessoa.
Quantas vezes, eu terei que te dizer
Que o mundo voa
Nas asas do bem-querer.










Enorme simpatia

Não há mais porque chorar.
Nós dois estamos juntos.
Nada vai nos separar;
Muito menos, nossos mundos.
Desencontros, pode haver.
Mas entre eu e você,
Há uma enorme simpatia
Que supera a vilania
Da razão e do poder.



Sempre eleitos

Quem são esses homens
Que me fazem rir
Por mero deboche e enorme desprezo.
Eles são daqui,
Eu os reconheço.
Eles são os mesmos,
Com os mesmos erros.
Eles não têm medo
De se repetir.
Pois são sempre eleitos,
Não importa o peito
Que venham ferir.



Tara

Sofro por admirar a beleza alheia
Da jovem solteira,
Da mulher casada;
Pela sutileza do rosto,
Pela proporção do corpo
E pelo perfume que exala.
Dá-me ânsia e desejo,
Também medo,
De não tê-la e perdê-la
Antes mesmo de amá-la.
Vejo-a como uma fortaleza
Que resguarda minha tara.


Um anjo

Tenho a sensação
De que encontrei um anjo;
Por milhões de anos,
A chorar.
Sinto que me ama,
Ao tocar sua pele clara
Onde o sol ofusca meu olhar.
Ele não tem asas.
Mas pode voar
Nos mais belos sonhos,
Onde eu o amo
Num eterno mar.


Meu ócio

Eu não gosto do sabor deste sangue
Que em cálice me servem.
Minha alma prefere
O sabor de meu nome,
Que é minha carne.
O amor não me queima,
Sempre arde
Em um fogo que some,
Que consome meu ódio
Que odeia a fome
Que alimenta meu ócio
Enquanto come.



Quem sonha

Essa é a meta
De quem sonha,
Realizar seu pensamento.
Um só momento,
O acompanha
Por todo o tempo,
O sonho,
O dono
De seu lamento.
Essa é a promessa
De um perdedor,
Terei nos braços
Sua vitória
E a glória
Do seu amor.
Mas quem sonha
Nunca perde,
Não inveja outra pele
Pra lhe servir de cobertor;
Pois quem sonha,
Vai pra cama
Por amor.




Cinto no pescoço

Tenho um chapéu
Que me põe à sombra;
Uma camisa longa,
Que me faz suar;
Tenho uma calça
Que de bar em bar,
Cobre minhas meias
Que se escondem, feias,
Dentro de um par
De velhos sapatos
Que tão apertados
Seguem meu pesar.
Tenho que citar
Meu esnobe e fino,
O elegante cinto
Que usei faminto,
Para me enforcar.







Em seu lugar, saudade

Estou livre pra pensar.
Verdade!
Mas ficou em seu lugar,
Saudade.
Só o tempo nos ensina,
Com ele, a maioridade,
Que na vida não há sina
Se fizermos nossa parte.
Tatuado em meu braço,
Eu conservo o seu nome.
Mas somente em teu abraço,
É que a solidão some.
Estou livre pra pensar.
Verdade!
Mas ficou em seu lugar,
Saudade.










Você é paz

Não posso mais
Voltar atrás
Na minha decisão.
A quero mais,
Sempre mais.
Assim, diz o meu coração.
Não posso mais
Voltar atrás.
Fala mais alto, a razão.
Apesar de te amar demais,
Não posso mais
Voltar atrás.
Não posso mais te ver.
Preciso me esconder
De nós,
Do seu sorriso, Da sua voz,
Do meu silêncio.
Você é mais que alento,
É paz.







Noites

Enquanto eu souber
Que alguém ao meu lado,
Tem medo de seu companheiro
E que por inteiro,
Sou parte de seu pesadelo,
Duvidarei de nossa sorte.
As noites em claro,
São de morte.
Enquanto eu puder
Mudar esse fato
E dar segurança primeiro,
Sempre serei verdadeiro,
Mesmo não sendo forte.
As noites em claro,
São de morte.
Não quero viver acordado
Enquanto o mundo dorme.
As noites em claro,
São de morte.







Beijo molhado

Não tente entender
A suprema delícia
Que é um beijo molhado.
Nem a própria chuva
Que cai fina no telhado,
Tem a mesma insistência
E medida.
Nem a louca
Que se encontra iludida,
Tem a mesma malícia
E ternura.
Pois não há maior loucura
Que um beijo molhado
Sob a chuva
Que passa despercebida.








Tarde amarela

Se o amor me dá asas,
Vou voar sobre as casas
Para a sua janela.
Voarei como as velas,
Com a graça
Das garças,
Sobre as águas
Mais belas.
Suas mechas
De cabelos doirados,
Qual o sol com seus raios,
Numa tarde amarela.


Aproveitei a deixa

Você está de volta à minha cabeça.
Já não tenho certeza
Do que quer.
Será que você ama
Ou só deseja?
Que só me quer na cama,
Quando beija
Ou quer que a veja
Como a uma mulher?
Ao escutar sua queixa,
Aproveitei a deixa
Para vê-la como é.


Não viva além

Nem sempre, olhar
Ao se olhar,
É perceber.
Quem não cuidar
Em se encontrar,
Vai se perder.
Sempre querer
O que não tem;
Tentar viver,
Viver além;
Além do mais,
Não terá paz.
Você jamais
Será ninguém.






Triste sina

Está gravada
Em minha retina,
A triste sina
De um coração,
Por ver ceifada,
Pobre menina,
Que assim termina
Com as próprias mãos.
Não há palavra
Que a defina,
Dor assassina,
Dor da paixão.




Por amor

Eu queria tocar a sua mão,
Mas você me evitou.
Por receio,
Por amor
Ou por mera precaução?
Na verdade, a intenção
Era ir muito além,
Era viajar de trem
Até a velha estação
Onde você me entregou
Por amor,
Seu coração.



Não vá embora

Eu não minto
Quando lhe falo de saudade.
A saudade está em mim
Como um louco num labirinto.
É o que sinto,
É a mais pura verdade.
Não lhe revelo
Meu amor por vaidade,
Mas por coragem;
A de um bravo selvagem,
Que escalpela uma senhora
E depois chora
Por piedade.
Não acredito
Que você me esqueça agora;
Seria o mais grave delito,
Seria o dito por não dito
Contra a inocência de um maldito
Que implora:
Fica comigo,
Meu amor,
Não vá embora.




O que diz o coração

Você ficou em mim
Numa única relação,
Como as marcas numa cela de prisão.
Absorveu meu medo
De arriscar na emoção,
Os valores cultivados na razão.
Entreguei minhas virtudes
Em atitudes
Que diziam não.
Nada é em vão,
Desde que escute
O que diz o coração.


Melhor assim

Foi um prazer,
Amar você.
Já não há mais,
O que fazer.
Não há vencido ou vencedor.
No amor,
Não temos nada a perder.
Melhor assim,
Até o fim,
Eu sem você,
Você sem mim.




Beijo de verdade

Quero um tempo pra falar-te,
Longe de teu baluarte,
Perto de meu quebra mar;
Onde eu possa te olhar
De minha parte,
Fazendo arte,
Te chamando pra nadar.
Vejo se apagar,
O sol, à tarde,
Dando um tom à tua face,
Tão suave,
Que não ouso te tocar.
Porém, antes que eu me afaste,
Uma onda que se bate,
Teima em nos aproximar.
Tua boca não consegue ocultar,
O que a minha tem vontade.
E naquela liberdade,
Conhecemos de verdade,
O que é beijar.






Só quero viver

Mesmo sendo tarde,
Temos tempo ainda.
Que seja eternidade
Enquanto não finda.
E de minha parte,
Quando o amor invade,
É o que determina.
Meu coração se abre
Tal no campo age
A flor matutina.
Não quero entender;
Só quero viver
O que a vida ensina.
Em cada detalhe,
Eu procuro a arte
Da feição feminina.
E qualquer canção
Que fale de paixão,
Tem minha atenção,
Tanto que fascina.
Não quero entender;
Só quero viver
O que a vida ensina.
Não sei a verdade,
Nem também me cabe
Explicar o amor.
Seja o que for,
Eu sou a metade.
A outra, quem sabe,
É você menina.
Não quero entender;
Só quero viver
O que a vida ensina.







O fim do mundo

Prefiro ver o fim do mundo
Em solidão,
Do que alheio
Em meio
Ao desespero da multidão.
Boquiaberto e coração na mão.
Talvez, acorde
E faça alguns acordes
Em um violão.
Em vez de oração,
Uma triste canção
De despedida.
Em vez de gritaria,
Compleição.
Prefiro ver o fim do mundo
Em solidão,
Do que alheio
Em meio
Ao desespero da multidão.
Talvez, perdesse a razão
(Se é que a tive um dia).
Mas, mesmo assim, eu tocaria
Nas últimas horas vazias,
A mais triste melodia
Na harmonia do diapasão.
Prefiro ver o fim do mundo
Em solidão,
Do que alheio
Em meio
Ao desespero da multidão.
Não necessito de perdão,
Mas de maior conhecimento.
Embora tudo seja em vão,
Toda a ação, todo momento,
Não faço nenhum juramento
E não almejo outro lugar.
Ao ver o mundo se acabar,
Irei, na certa, encontrar
O fim de todo sofrimento.




Mossoró

Eu me encontro em Mossoró,
Onde ainda estou só,
Entre a multidão perdida.
Na garganta, há um nó
De poeira e de pó,
De tristeza engolida.
Em meio à praça, erguida,
Há uma cúpula de vidro.
Fico olhando entretido,
Esquecido dessa vida.
De repente, uma batida
Chama a minha atenção.
É um carro em contramão
(Como é meu dia-a-dia).
Os pombos voam em seguida,
Para um prédio em construção.
Perco então, a direção
Que seguia o pensamento.
Sinto em meio ao movimento,
Uma paz não esperada.
Olho a fonte que jorrava
E continuo em silêncio.
À sombra de uma acácia,
Em um banco, eu me sento.
Como está quente o tempo
Nessa tarde de verão.
Sinto que meu coração
Se apegou a esta cidade.
O que sinto na verdade,
É amor e gratidão.
Talvez não esteja só;
O calor de Mossoró
É de hospitalidade.






 

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