SAL E CAL [SerrãoManoel] Brazil.
Comentário de João Batista do Lago em 2 dezembro 2009 às 11:16
Meu caro Manoel Serrão.
Bom dia.
Este é mais um dos belos poemas de sua lavra que tenho a honra de ler. Em "SAL E CAL" você deixa "escapar" - aos meus olhos - o vocábulo mais forte e terrível desta sua poética: latifúndio. Deste termo podemos inferir mil e uma alocuções - seja como enunciado, seja como discurso. É exatamente esta palavra, neste seu poema, que conduz toda a força da "fúria que mira" com "o dedo no cão" e prosta, por fim, o trabalhador rural. Se me permite a audácia infiro: este seu "sal e cal" é uma das mais belas poesias socio-políticas que tive a oportunidade de ler.
Um grande abraço.
João Batista do Lago
SAL E CAL
DE.: Manoel Serrão.
A safra o sal encharca o chão,
Safa em sacas faz do silo o cio
E do latifúndio são parecer o céu.
A cal o pó do estio o caos.
A sesma a dor a sede,
O ser a fome, agoniação.
Agoniza em vão, “paga”
A gleba cava sem-grão.
Cabra cega a fúria mira,
Ira, nega o feito e aponta,
Cede sem "opor-se ao pão”.
Mas a conta!
O dedo acaba no cão.
CÂNDIDO PORTINARI, Criança Morta (Criatura muerta), 1944
Óleo s/ tela, 176 x 190 cm.
Col. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand São Paulo, Brasil