Passa o tempo. Ultrapassa o espaço e o som dos pássaros.
A poesia não diz do infinito com palavras que se derrotam ao nascer de um sorriso iníquo e injusto. Acorda da delicadeza, indolente, toca o sol num escrito que, ao sabor do vento, ousa. Simples, como o afeto guardado na água dos olhos.
Nunca mais voltei à tua janela em frente ao mar, mas nele já não se vê os barcos. Continuo, entretanto, a buscá-los no horizonte e com cuidado e atenta observo a minha bondade, fica tranqüilo.
Rezo um pai-nosso para ti e o credo para mim - do meu jeito -, acreditando que já imprima em cada passo uma expressão das minhas impressões sem queimar os pés. E mesmo que por vezes me liquefaça no dizer do silêncio dos corpos interiores, celebro ainda o olhar que, de maneira fraternal e amorosa, me fale do mistério da vida e do ofertório possível na pedra fria de um altar que já não se presta a libações em qualquer capela.
Pouco sei da gazela que se contentava em correr pelas matas atrás de um abraço do vento e esta é a minha atual oração: um elogio à loucura que comete poesias, que se encontra - corajosa e humildemente - com a palavra e a imagem, numa sagração que enlaça e tece testemunhos, desejos, presenças.
Como a tua, dentro de mim.