Poema dezasete do meu livro "Onde o vento leva um sonho de carpaças"
A José Maria Díaz Castro, quem como Ulisses sabe que Penélope tece e destece por Ítaca.
Passará o tempo e tornar-me-i velho
- casca valeira pobre e sem retorno -,
A mesma foula toldará o espelho
um mesmo dia silencioso e morno.
Deitar-se-á o sol na dourada pedra,
Assinará a rubrica a águia no sol-pôr,
Medrará a história na sombria edra
E às negras traves cobrirá o bolor.
Polas fendeduras o mofo veludo
Dormirá a melancólica mirada.
O vento geado ficará mudo
Na breve pucharca negra e isolada.
..................................
A tarde saudosa riscou-me na alma.
No meu pensamento o tempo volvia.
O campo ficou-se sedoso e em calma
Rasgado no chio de uma cotovia.
..................................
Voltará, pensei, a alegre primavera
Que a terra agradece e a ilusão espera.
Aqui, talvez, o coração aguarda
O cubra o silêncio da terra parda.
Nota para as palavras do português da Galiza não dicionariadas no resto dos países da lusofonia.
(Veja-se a respeito o dicionário on-line de Issac Alonso Estraviz: http://www.estraviz.org no Portal Galego da Língua:http://www.pglingua.org/)
foula: Poeira.
Pucharca: poça
José Maria Díaz Castro foi um grande poeta galego do século XX.