Colcha de Retalhos

 
Colcha de Retalhos



Chega o sol nessa manhã nublada que já me brindou com a visão do Monte Fuji, enevoado e azul. Gosto desse poder da imaginação, que me transporta a lugares longínquos em fração de segundos e me traz de volta sã e salva - com a mesma rapidez -, para o samba com batida cubana que toca no rádio.

Sigo tentando pôr ordem nos sentidos, embaralhados com pensamentos avulsos que me povoam desde cedo.

Carly Simon não ajuda muito nesse intento, mas me agrada profundamente ouvi-la e essa é, seguramente, uma das vantagens do rádio: a aventura constante do destino incerto, trazido por imagens mnemônicas, a cada música.

Deitado a meus pés o cãozinho realiza o que há de lealdade, seguindo-me como sombra para onde eu me dirija, tão de perto que por vezes tropeço e penso que, se existisse um ser humano com seis pés, assim se resolveria: bem mal, aos trancos e tropeços.

Arrumar camas ou quarto de adolescente é tarefa rotineira que me agrada desde que descobri que imprime ritmo ao cotidiano, o que me dá a gostosa sensação de que a vida é mesmo uma dança, com ou sem lobos.

Lavar a louça do jantar da véspera é útil, refresca e traz prazer no tato: o detergente torna tudo escorregadio e lascivo.

Freud dizia que as imagens dos sonhos são, na verdade, estanques. Cenas separadas, como as vistas uma a uma da janela de um trem em movimento, e nós é que construímos o enredo.

Há muito não sonhava acordada. Embora devaneando, estou em vigília e recolho, cuidadosamente, cada uma das imagens que me inundam a mente. Deixo-as fluir para que possa capturá-las integralmente, e as costuro, como retalhos em uma escrita de parágrafos disjuntos.
 

Conteúdos Populares

Antologia de Moçambique

Poesia do Brasil

Antologia da Guiné Bissau

Poesia de Portugal

Antologia de São Tomé e P

Teoria Poética

Arte Poética

Poetas em linha

  • Visitantes: 11
  • Membros: 0
Lusofonia Poética - Portal de poesia lusófona © desde julho de 2007
Política Privacidade | Regras, Termos & Condições de uso