Este poema fora elaborado num tempo em que o meu olhar sobre o Portugal de então exigia que voltasse à luta. Hoje, mais do que as dificuldades consequentes da conjuntura internacional, dificuldades a que poucos (sempre os mesmos)escaparão, é a governação experimentalista, publicitária e sem certeza de futuro, a que o meu país está sujeito, que me obriga a deixar aqui os versos de há 15 anos. Objector de consciência relativamente ao uso de belicismo, a minha arma tem sido e continuará a ser a palavra.
MINHA PÁTRIA MINHA
Minha Pátria!
Minha Pátria minha!
Que luta para te libertares do cárcere medonho
Onde quase morreste esquecida!
Que sofrimento!
Que raiva!
Que dor!
E o algoz do tempo a falar de amor?!
E a violar-te na imunda cela
Onde te guardava
Com guardas à porta,
Grades na janela,
... e, tu, quase morta!
Minha Pátria!
Que triste provação!
Qual herança sofrida por quem te amou e te ama!
Morreram filhos teus
Sob a noite quase eterna que se abateu...
Houve fome de justiça
- Esse alimento, esse pão
Que te roubaram da mão -
E a mentira era a mesa
Onde comiam os lobos,
Sob a qual dormia o cão.
E enquanto o tempo corria
A esperança esperava
E definhava
E gemia,
Arrastando-se no tédio que alastrava!
Mas a fé escapou da infinita agonia
Para gritar
E gritou, gritou, gritou...
E os poetas ouviram
E tua alma, espezinhada, sonhou!
Sonhou ainda,
Sonhou.
E, um dia, Abril Chegou.
Aleluia!
E o sol Raiou.
O sol raiou para todos
E os poetas cantaram.
Teus mortos ressuscitaram,
Tu deste-me a Liberdade
E eu caí em seus braços.
Mas o tempo não parou.
Tu deixaste de sonhar
E o Abril passou.
Deixou-te esta nostalgia
Com que matas as saudades dos teus sonhos.
Tens de voltar a sonhar, Pátria minha!
Tens de voltar a sonhar,
Mesmo que tempos medonhos
Venham para te matar.
Mas tu nunca morrerás!
Tens de voltar a sonhar com Abril!
Abril! Que saudade!
Tens de voltar a sonhar,
Mas com um Abril de verdade
Que venha para ficar!
Abril de 1993, in VERSOS NA GUERRA - VERSOS DE PAZ