Poema que apareceu no livro da minha autoria, Onde o vento leva um sonho de carpaças, publicado polas Associações de emigrantes galegos no País Basco, Associação Galega Rosalia Castro e o Fato Cultural Galego Daniel Castelão, em 17 de Maio de 1990.
Galiza aqui, com nós,
e nós em ti, Galiza,
aberta a cada instante
no agalopar dos dias,
escrita na memória
constante e colectiva.
Há uma alva de glória
que não conhecemos inda.
Dizei-o!
Através das mãos arreganhadas
e as fontes latejantes.
Berrai-o!
Afogai
nas gorjas
os lamentos
e a saudade dos bacocos!
Lembrai
sempre,
sempre,
os caídos!
Os que suaram o pão
e não tiveram uma aurora,
embrai!
Aos filhos
e aos filhos dos filhos
e aos netos dos vossos filhos,
falai-o!
À terra mole
onde trabalha o pão
e a esperança descansa,
à pena poderosa
e às ervas ventureiras,
berrai-o!
Despertai
os líricos gorjeios
e o verdor dos soutos!
Ao sorriso amplo
dos lábios da alvorada
e à esteira inexorável
das estrelas
cantai!
Escrevi
a tensão dos amores
agachados
e a cantiga da fonte
virginal!
… Mas,
daqueles
que não olharam o alvorecer
acordai-vos!
Lembrai
sempre,
sempre,
os caídos!
Galiza aqui, com nós,
e nós em ti, Galiza.
Galiza do Medúlio,
Roi Xordo da Galiza,
Galiza do Marechal,
Alexande da Galiza,
Castelão duma esperança,
facha ardente em Rosalia
e essa estrela que abrolha,
que nos chama e nos convida.
Dizei-o!
Berrai-o!
Aos filhos
e aos filhos dos filhos
e aos netos dos vossos filhos,
que está-se erguendo um vento de cantigas.
NOTAS.
O Medúlio
é o monte onde os galaicos tiveram a última batalha em 22.a. C. contra as legiões romanas de Cayo Furnio e Publio Carisio. Nele morreram mais de 30.000 guerreiros numa dessesperada luita. O historiador latino Lucio Anneo Floro relata que, cercados por um abafante fojo, os derradeiros combatentes se deram morte a si mesmos ou ingeriram um veneno que tiravam das pinhotas do teixo.
Roi Xordo
coudel das irmandades galegas (burguesia urbana e camponeses) contra o poder da Igreja e dos nobres galegos em 1431 (veja-se a entrada na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Roi_Xordo)
O Marechal
(Pero Pardo de Cela Rodrigues de Aguiar e Ribadeneira) foi decapitado na cidade luguesa de Mondonhedo por ordem dos Reis Católicos de Castela e Aragão em 17 de Dezembro de 1483. Com ele acabou uma das mais fortes resistências pola independência da Galiza contra o poder expansionista e imperialista de Castela. Ainda hoje cantigas populares lembram o grande coudel das liberdades galegas (veja-se na Wikipedia: http://fr.wikipedia.org/wiki/Pero_Pardo_de_Cela)
Alexandre
(Alexandre Bóveda Igésias) foi fuzilado polos fascistas no monte da Caeira (Poio- Ponte-Vedra) em 17 de Agosto de 1936. Atualmente celebra-se nessa data o Dia da Galiza mártir (veja-se na Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_B%C3%B3veda)
Castelão
(Afonso Daniel Manuel Rodríguez Castelão) é o pai intelectual do nacionalismo galego atual e o seu principal teórico no livro Sempre em Galiza, que é denominado a Bíblia do galeguismo. (Veja-se na Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfonso_Daniel_Manuel_Rodr%C3%ADguez_Castelao)
Rosalia
(María Rosalía Rita) é a maior poeta de nunca da Galiza e é considera polos galegos como a sua autêntica matriarca.
Toda a sua obra está cheia de intenso amor à nação galega e pode ser considerada, a par de Camões, a mior poeta da lusofonia. A Academia Galega da Língua Portuguesa está a preparar uma edição da sua primeira obra: Cantares galegos. (
Veja-se na Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rosal%C3%ADa_de_Castro)