Bebê, o infinito em ti se encerra

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Bebê, o infinito em ti se encerra


Maria,


Livre de buscares significações e razões para tudo, acordas e, quando o fazes, despertas completamente. Tampouco te aventuras pelo passado: a importância está no que és agora. Interessante talvez venhas a achar, um dia, a brincadeira do passado e do futuro e, quando já não for uma brincadeira - por tão sérios serem seus efeitos - recorrerás à memória para traçares teu presente. Que este, insistente, possa falar e dele seja, o teu futuro, uma decorrência temporal.


A leitura ou a escrita não são suficientes por si só, há mais. Não paga contigo mesma o tributo à vida: há que ter algum, mas podes escolhê-lo. Embora a vida não seja um passeio, é uma deliciosa ventura – e aventura. Reflexões fazem parte e as discussões solitárias que terás contigo mesma te ajudarão a forjar um estilo próprio: elo que te garantirá poderes nadar no mar em que tantos se debatem.


Isto é uma imagem, mas não deixe que elas te dirijam, tampouco as palavras. Usa-as tu, na tua jornada, e escolhe o teu caminho. Muda-o quando achares por bem ou te aprouver, mas busca dar conta das movimentações necessárias, o amor presente.


O amor é um estranho fogo, por causa dele nos movemos: é o sentido da vida. A direção, damos nós.


Chegarás a lugares. Alguns difíceis de alcançar, talvez por isso mais saborosos. O desafio é inerente ao humano, as conquistas nos dão o valor das coisas. O sonho é fundamental, desde que construas os alicerces para realizá-los, senão poderás ficar um tempo demasiado à beira de alguma estrada ou, talvez, te debatendo naquele mar...


As artes são boas companheiras, a serenidade e a paz são sábias. As paixões, embora efêmeras, são necessárias. Nada se faz bem feito sem um interesse que nos tangencie o coração. "Esse interesse, chamamo-lo paixão quando, recalcando todos os outros interesses ou alvos, a individualidade por inteiro projeta-se sobre um objetivo com todas as fibras interiores de seu querer e concentra nesse alvo todas as suas forças e todas as suas necessidades. Nesse sentido, podemos dizer que nada de grande se realizou no mundo sem paixão." Assim dizia Hegel - um filósofo que será sempre importante - no livro "A razão na história".


O coração fala e diz coisas importantes, a serem levadas em consideração – não é só um músculo, ou morada da alma. Ouve-o, mas protege-o: ele é um eterno bebê – não como tu, que crescerá - sempre disposto a pular no colo de quem o toca. Às vezes se desaponta (o que se reflete em nós, sua habitação): nem sempre há um colo disponível atrás de um toque. Deixa-te tocar, não te defendas, mas cuida-te.


A natureza, ainda que estejas na cidade, não a dispenses. Há dias calmos e quentes, mesmo em junho. O céu é mais azul nessa época e olhar a lua à noite não te esfriará, poderás dormir com o calor que amealhares para ti durante o dia.


Os grilos sempre cantam lá fora, em noites no campo, muito mais estreladas. Ouvi-los e vê-las é magnífico e podes agradecer aos teus pais estares ali. Nada relacionado com o fato deles serem participantes da tua existência... E tudo, também.


Se não ouvires as cigarras, é porque só voltam para anunciar o verão. Mas existem, mesmo que não saibas onde estão. Há incongruências que basta reconhecer e há coisas que existem, independente de creres. Contudo, atenta à filosofia e à metafísica, para não te enredares nelas.


As coisas que virão a te agradar estarão sempre presentes, fazendo parte de um espaço ao qual irás quando quiseres, sendo esses vôos objeto de teus desejos.


O estar referida ao tempo presente te engrandecerá. Tudo flui mais naturalmente e não pré-ocupares a mente te libertará.


Não coloques peso a mais do que já tiverem as tarefas a que te propuseres. Só assim – penso eu - sentirás o prazer de vivê-las. Não cries problemas das situações difíceis. Obstáculos são para serem ultrapassados ou contornados e problemas... Bem, uma vez criados têm que ser resolvidos. A matemática te demonstrará isso com números, mas vale a analogia.


Tudo faz parte, não deixa de exprimir-te. Atenta às tuas impressões, expressa-te.


O tempo é relativo e um instante será, ou não, breve. Sua duração depende da vida de cada momento. Olhar para as folhas em uma manhã de sol é tão bom, que o bonito simplesmente apreciado pode ser um instante infinito.


Um beijo carinhoso


da Sonia



texto vencedor do Desafio de Prosa 04/2007 (set/out/07) do Grupo Literário Amantedasleituras

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