Poema branco

 
Poema branco


Este poema é branco
E é frio

Como um pedaço de gelo
Sem calor para ser água
Levantar fervura
E ser vapor

E que apenas será transparente
Aos olhos da gente
Quando não tiver arestas

Como o novelo de lã
Apenas será meia
O emaranhado de palavras
Apenas será poema
Quando tiver ideia
For lido
E sentido
Mesmo que não tenha rima nenhuma

Como o monte de caruma
Apenas será fogueira
Quando ateado pela chama
De quem precisa de se aquecer

Como o branco apenas será alvura
Quando não tiver riscos de carvão
No seu coração

E o preto será negro
E o negro será preto
Quando não houver branco no seu olhar

E o homem apenas será livre
Mesmo se amarrado às grades da prisão
Quando se não tomar da mais leve angústia
Nem sentir rancor no seu coração

Como a madrugada apenas será dia
Quando o Sol raiar
O presente apenas será futuro
Quando houver passado para contar

E a Verdade apenas o será
Se não houver ideias obscuras

E o viver apenas será Vida
Quando não tiver ameaças de morte
Nem sentimentos de má sorte

A luz será absoluta
Quando não for refractada por nenhum prisma
E não tiver a mais imperceptível franja de cor

E o Amor apenas o será
Quando não tiver o mais ínfimo sentimento de egoísmo

Este poema é branco
Porque já quase não tem cor
Mas é frio
Porque não tem ainda suficiente calor
Para ser Amor


Vale de Salgueiro, 18 de Fevereiro de 2008

Henrique Pedro
 

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