Sem partida marcada: de chegada, só. Sem certezas

 
Sem partida marcada: de chegada, só. Sem certezas
Texto vencedor do Desafio de Prosa 04/2007 do Grupo Amantedasleituras
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Oi




Olha, as emoções são várias. Nem nome têm, em nossa língua tão vasta. São adjetivos, todas.

Julguei ser aquele o último trem que passaria na estação, oportunidade que não mais teria. Embarquei. E sofri, quando encetei a viagem, embora intensa e entusiasmada. O que me fez cogitar sobre a impermanência, sobre o que falta (ou sobra) nas paisagens cotidianas e sobre a sucessão de imagens que se vão adicionando – ou mesmo subtraindo -, ao longo do caminho.

Aprendi que as descidas em outras estações – e os regressos ao trem – fazem parte das viagens. Não são embarques e desembarques, que se desenrolam em torno da falta.

Mas pude verificar que somos mesmo, todos, passageiros. A vida não é um passeio, mas tudo é uma viagem, e é preciso viajar. (“navegar é preciso, viver não é preciso’, não é assim que diz o poeta?). Se morre a viagem, morre o passageiro. Já sem imagens, ou telas, ou quadros ou paisagens, resta um ‘eu’ sem nome ou função: ‘um ponto’ na estação, com nenhum pertencimento.

Por isso embarquei. Para não morrer como passageira. Para que ‘o ponto’ de vida, em mim, se renovasse.

Não foi fácil. Nem simples.

Sei que me entende.

Será?

Olha, estou perto da tua casa, depois de um desembarque.

Sou uma passageira sem partida marcada: de chegada, só. Sem certezas.

Quem sabe a gente se encontra, eu gostaria. Muito. É tudo tão efêmero...

Beijo,

meu.


 

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