Historial Poesia de São Tomé e Príncipe

A literatura são-tomense mergulha as suas raízes no século XIX, princípios do séc. XX, com o jornalismo, praticado pela elite dos “filhos-da-terra” na imprensa da época 

Nesses periódicos, - de carácter não oficial e não-governamental, onde se desenvolveram polémicas sobre a dignificação e instrução das populações nativas, sobre o abuso do poder, violência contra o negro e sobre a questão das terras expropriadas aos nativos - eram igualmente publicados poemas dispersos, onde se detectava já uma matriz  pré-nacionalista,  indiciando uma consciência unitária e libertária.

A primeira obra literária de que se tem conhecimento, relacionada com S. Tomé e Príncipe, data de 1896, sendo um modesto livrinho de Poemas Equatoriaes, do português António Almada Negreiros (1868-1939), que ali viveu muitos anos.

 Caetano da Costa Alegre (São Tomé 1864 - Alcobaça 1890), Foi um dos primeiros, poetas africanos de expressão portuguesa a colocar sua condição de africano na poesia.

A sua poesia revela a dolorosa angústia de quem teve a cor como estigma indiciando já, um certo negrismo literário, configurador da etnicidade que marcará a literatura africana de língua portuguesa

Obra póstuma: Versos (1916).

Marcelo Veiga, (1892-1976), estudou no liceu em Lisboa onde viveu, por  períodos intermitentes.

Foi amigo de Almada-Negreiros, Mário Eloy, Mário Domingues, José Monteiro de Castro, Hernâni Cidade.

Passou despercebido até 1963, momento em que Alfredo Margarido o incluiu na antologia Poetas de S. Tomé e Príncipe, por ele organizada e publicada, na Casa dos Estudantes do Império,

Na sua poética, Marcelo Veiga dá, o sinal da negritude, não só em S. Tomé e Príncipe como em toda a área africana da língua portuguesa: «África não é terra de ninguém, / De qualquer que sabe de onde vem, [...] A África é nossa! / É nossa! é nossa!»,

Pela exibição da cor, usos e costumes como diferenciadores etnoculturais, pela memória vivencial Marcelo Veiga é, “o mais longínquo pioneiro da autêntica poesia africana de expressão portuguesa; podíamos mesmo adiantar da negritude” (Manuel Ferreira,)

No entanto, “ os fundamentos irrecusáveis da literatura são-tomense começam a definir-se com precisão em 1942, com Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro (1921 - 1963) frequentemente considerado o primeiro poeta da Negritude de língua portuguesa, (Inocência Mata 1995)

No entanto Ilha de Nome Santo é, “uma poesia eminentemente insular,” não obstante os “3 poemas soltos” incluídos em Ilha de Nome Santo, a saber “Epopeia”, “Exortação” e “Negro de todo o Mundo”, possuir a estética em consonância com a dos poemas “revitalizadores de figuras, signos e símbolos emblemáticos do mundo negro-africano e vinculados aos modelos tutelares da consciência negra nos Estados Unidos, Cuba ou Haiti e redimensionados pelo movimento da Negritude”.

Alda do Espírito Santo (30 de Abril de 1926, São Tomé e Príncipe - 9 de março de 2010, Luanda, Angola)

O seu discurso descreve-se entre o relato quotidiano da ilha, impregnado de alusões simbólicas de esperança, ou do registo de anseios de transparência política: «uma história bela para os homens de todas as terras/ciciando em coro, canções melodiosas/numa toada universal» 08 até ao clamor da revolta de um povo oprimido como em «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura»

Em Maria Manuela Margarido: (ilha do Príncipe 1925, - Lisboa 10 de Março de 2007) encontramos o mesmo clamor da revolta reflectindo e denunciando a repressão colonialista portuguesa, assim como a vida pobre dos seus conterrâneos nas roças do café e do cacau.

Na sua poesia a cólera e a revolta são duas constantes que, associadas ao movimento dialéctico da vida que tudo destrói e reconstrói, trazem a esperança:  «Na beira do mar, nas águas,/estão acesas a esperança/o movimento/a revolta/do homem social, do homem integral»,

Em Tomaz Medeiros: (São Tomé,  5 de Novembro de 1931) vamos encontrar uma Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, que, mais do que a fala de cada poeta,  ela se consubstancia na voz colectiva do homem são-tomense

 

Amanhã,

Quando as chuvas caírem,

Nos braços das árvores,

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Irei

Desafiar os mais trágicos destinos

à campa de Nhana, ressuscitar o meu amor.

Irei.

   

Fontes:

Inocência Mata, “Marcelo de Veiga e Francisco José Tenreiro” in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 336-339 – adaptado)

 LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO. 1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/LiteraturaSantomense.htm, 2008-09-13. 2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/LiteraturaSantomense.htm, 2016.

ETQ_ACTUAL em 27.11.2016, 2.239 ETQ_ACESSO

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