Aviso à navegação

Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui

na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!

Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!
Que na guerra
só conheço dois destinos:


ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

- (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!

 

Joaquim Namorado ;1941

in: Novo Cancioneiro da Caminho, edição de 1989,

com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)

Actualizado em 24.08.2012, 2.432 Acessos

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