Metamorfose

Quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor

 

tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato

 

falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze

 

as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas

 

falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola

com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo

 

a roda
e o sonho

 

das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste

 

AOS GRITOS

Luís Carlos Patraquim

ETQ_ACTUAL em 02.08.2012, 6.436 ETQ_ACESSO

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